segunda-feira, 7 de março de 2011

Os 11 sexos de um anjo terapeuta


Você já ouviu falar em terceiro sexo? Claro que sim, eu também. E ,décimo primeiro sexo? Garanto que não, e eu também não. Pelo menos até ler o livro do Dr. Ronaldo Pamplona da Costa – Os Onze Sexos, publicado pela Editora Gente. Ou será Gente Editorial? Agora me escapa o nome correto, mas li as provas antes de viajar e ponho minha mão no fogo por seu autor, alguém muito especial.
A maioria das pessoas está acostumada (condicionada? Manipulada?) a lidar com a idéia de apenas dois sexos –masculino e feminino – ou dois tipos de sexualidade. Os mais abertos admitem a existência de um terceiro, que englobaria confusamente todas as variantes  não oficiais nem pertencentes àqueles dois estabelecidos. Com muita objetividade e simplicidade, Ronaldo propõe nada menos que onze variantes. Como assim? Eu também, a princípio me espantei. Mas é tudo muito lógico.
Veja só: 1) Heterossexual; 2) Bissexual; 3) Homossexual;4) travesti; 5) Transexual. Só aí cinco possibilidades. Pense então nelas nas versões masculina e feminina Ok, serão dez. E a décima-primeira? Segundo Ronaldo, seriam os hermafroditas. Onze sexos, confere?
Com que autoridade o autor afirma isso? Bem, Ronaldo é psiquiatra, psicanalista, terapeuta, psicodramista com, calculo, mais de 20 anos de experiência com indivíduos, grupos, casais e quem o procurar. Fora os créditos profissionais e o imenso e valiosíssimo conhecimento do humano adquirido nesses anos todos, Ronaldo tem uma qualidade rara no seu ramo: ele se individualiza para os pacientes.  Não faz a Esfinge Enigmática consagrada pelo modelão freudiano: Ronaldo sorri e conta histórias da sua ou de outras vidas, com um jeito tranquilizador de deixar sempre no ar que nada do que é humano é estranho.
Posto isso, percebo que é mais do autor que do livro (uma delícia não-ortodoxa, recheada de solidariedade) que quero falar aqui. Por que não? Conheço Ronaldo há pelo menos uns 15 anos. No começo, eu fazia grupo com um terapeuta da mesma clínica. Mas na sala de espera, observava com certa inveja os clientes daquele outro terapeuta de cabelos compridos e túnicas indianas. Eram diferentes, mais leves e livres, sem aquele ar terrivelmente sério de quem tem confissões medonhas a fazer.
Parei com aquele grupo, passei por outras  experiências. Algumas marcantes, como um workshop liderado pela maravilhosa Rachel Rosemberg, num sítio em Pirassununga, interior de São Paulo; outras absurdas, como as sessões lacanianas com Betty Milan.Sassariquei por junguianos, pavlovianos, reichianos rogerianos e nem lembro mais o quê – era o meu jeito de fingir que estava me tratando, talvez, quando estava apenas me atordoando.
Até que um dia, segundo indicação de mais um terapeuta, encontrei Ronaldo. Surpresa: era aquele mesmo, o de cabelos compridos e túnicas indianas, só que agora de cabelos curtos, jeans e camiseta. Então parei de me atordoar. E comecei a me tratar de verdade.
Entre altas provisórias, grupos e individuais, intervalos, viagens e voltas para, digamos,"apertar parafusos", Ronaldo cuida de mim há cerca de 10 anos. Não temos mais aquela relação severa médico-paciente, temos coisa muito melhor, mais preciosa:somos amigos.
Durante minha temporada no hospital, lembro de cada uma de suas abençoadas visitasquase todas as manhãs do mês de agosto. Chorei um pouco no colo dele, mas ri muito mais com suas histórias de querubim safado e sempre pronto a, além de cuidados médicos, dar essa outra coisa em falta no mercado – Carinho, chama-se, com maiúscula. Tenho certeza que, depois dele, me tornei uma pessoa melhor, mais feliz, menos culpada. E aposto que isso também vai acontecer com você se ler o livro dele. Que, como o próprio, não é caro nem clínico, mas reconfortante. Caloroso feito um abraço.

                       OESP – Caderno 2 Domingo, 30 de outubro de 1994

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