quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Para sempre a estrela Elis

1962, palco do Cine Castelo, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Final do programa de auditório Maurício Sobrinho, da Rádio Gaúcha. As luzes se acendem sobre a grande atração daquela manhã: a estrelinha Elis Regina. Baixinha, meio desajeitada, ela vacila num repertório de versões um pouco na linha de Celi Campelo, com algumas tímidas incursões pela música brasileira. Mas a voz-clara, forte, afinadíssima empolga a platéia. Todos comentam: 'Essa menina precisa sair daqui'.
E ela saiu. Meio no braço, como era seu jeito. Saiu para gravar um primeiro disco, VIVA A BROTOLÂNDIA, ainda com resquícios do modelo 'jovem' americanizado. Saiu para passar trabalho no Beco das Garrafas, para agitar os braços ao som de Arrastão, nos festivais da vida, para comandar O Fino Da Bossa, para brigar com todo mundo, ficar mal-falada e bem-amada, para casar, descasar, ter filhos, abrir a boca e falar sem medo, assumir seus falsos brilhantes e aperfeiçoar ainda mais aquela voz-clara, forte, afinadíssima. Como se fosse um instrumento musical, não apenas uma garganta humana deitando e rolando debochada em qua-qua-ra-qua-quás ou gemendo baixinho, atrás da porta. No riso na dor, furacão Elis levantou vôo daquele cineminha de bairro e foi sobrevoar o país com os braços girando sem parar. "Elis-cóptero", como a chamava Rita Lee.
E vinte anos depois daquela manhã de domingo, com as ruas de São Paulo apinhadas do povo que acompanhou seu enterro cantando os versos de O BêBado e a Equilibrista, nesta outra manhã recente em que Elis partia - alguns no meio daquela multidão espantada e comovida comentavam, como naquela manhã antiga, que essa menina - ah, essa mulher - precisava sair daqui. Deste planeta que, tão freqüentemente, parece não comportar a sensibilidade. Mas a multidão inteira que cantava e chorava, nesta outra manhã, sabia inteira que Elis Regina, tinha virado para sempre uma estrela, como ela queria. Não uma estrela qualquer, mas a mais luminosa de toda a música popular brasileira. E nas manhãs, nas tardes e nas noites dos muitos anos seguintes, quando sua voz brotasse do regente dos rádios ou dos velhos discos, esses todos saberiam que Elis vive. Para sempre.

30 anos sem Elis

Maninha, precisava ser agora?
Eis, quando eu soube, assim de imediato, não acreditei. Esse vício de eternidade que a gente tem. E logo você, bicho? Tão agitadinha, tão atrevidinha e cheia de vida. Fui ao banheiro lavar o rosto, molhar os pulsos e olhar bem a minha cara cansada de 33 anos. Quando saí e espiei em volta tudo continuava lá. Feito nada tivesse acontecido. Lembrei duma história da mitologia grega. Contam que quando morreu Pan, o deus da música, alguns pescadores ouviram uma voz misteriosa gritar numa praia deserta: ‘O grande deus Pan morreu!” E nunca mais se ouviu falar dele. Hélice – como te chamava a Rita, acho que por causa daquela sua mania antiga de girar os braços enquanto cantava, em tempos de Arrastão – eu não sei o que estou sentindo. Depois do trabalho, saí a procurar pelas ruas do centro da cidade um sinal qualquer que confirmasse ou desmentisse tua partida. Não encontrei nada. As lojas não tocavam seus discos. Ninguém caminhava devagar. Não havia nenhuma melancolia específica no céu, além do cinza habitual. Só eu assobiava baixinho “Acender as velas já é profissão, quando não tem samba, tem desilusão”. (Vezenquando, só de sacanagem, você dizia ‘Quando não sou eu, é Nara Leão’, e dava aquela risada gostosa.) Então peguei um táxi e vim embora. Pedi para o motorista ligar o rádio, mas tocava Núbia Lafaiete. Você acharia engraçado. Pedi para ele parar antes de casa, comprei duas garrafas de vinho. Estou no meio da segunda. Pimentinha, que difícil que tá. Você tem que amar quem você ama agora, JÁ, você tem que começar a fazer tudo o que você quer porque a bruxa tá do lado esperando. Elis, eu também vou morrer nem sei quando. Antes eu queria tanto ser feliz. Embora nem saiba como é isso. Acendo uma vela branca procê ir embora numa boa. Abro as janelas e ponho bem alto você cantando ‘Primeiro Jornal’, porque é assim que quero te guardar, juntando tua voz matinal aos restos dos sons noturnos que ainda boiam na casa. Não tenho medo da morte. Tenho medo da vida. Baixinha, foi tão de repente... Mas ainda ontem, todo domingo de manhã eu ia ao cinema Castelo assistir você cantando no programa do Maurício Sobrinho, da Rádio Gaúcha. Você vinha com aqueles vestidos repolhudos cantar ‘Banho de lua’ e aquelas versões tipo Fred Jorge (Vixe, como tô ficando veio, guria!). No fim todo mundo aplaudia de pé, dançava e cantava junto. Depois, feito a Janis Joplin fez com Port Arthur, você saiu de Porto Alegre. Foi ser estrela na vida. Falavam mal, então como falavam: porque isso, porque aquilo, porque você chiava como carioca, que era metida que nem parecia ter saído dali do Partenon, que parecia que tinha Deus na barriga (descobri depois que você tinha mesmo, não na barriga, mas na voz). Nunca mais te vi ao vivo, só no finzinho do ano passado, no Anhembi. De repente você disse que queria falar com Deus. Eu me arrepiei. Parecido com quando você cantava ‘Atrás da porta’. Ou quando, naquele inverno comprido eu atravessava noites bebendo conhaque ouvindo ‘As aparências enganam’. Uma vez a Paula Dip bateu na porta enquanto você cantava e, mal abri, ela caiu no choro, porque tinha vindo contar-me coisas sobre esses enganos, essas aparências.
Maninha, precisava ser agora? Em pleno verão, o sol quase em Aquário. Sei que teu coração não aguentava mais tanta barra. Sacanagem... E juro que agora eu ouvi você rindo assim: quá-quá-rá-quá-quá. Tô sentindo um oco, Hélice. Tão ruim. O dia não conseguiu chover: eu queria agora chorar todo o choro que o dia não chorou por ti. Não consigo. Eu tenho a impressão de que poderia reconstituir, dias após dia, desde uma daquelas manhãs de domingo no Cine Castelo (que coisa mágica, eu tinha 12 anos, você 15) até estas duas da madrugada de hoje? Consigo não, Che. A gente, que é gaúcho, se entende. O tempo existe, Pimentinha, e passa, leva no arrastão as coisas e as pessoas que não morrem: ficam encantadas. Y solo resta el silencio, un ondulado silencio...
Nós te amávamos tanto, tanto. Guria. Até.
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